A MALDIÇÃO DO TITANIC, por AJ.

Esta história ouvi de meu pai que ouviu de meu avô.

Conta a história de Edward Sinkingworth, que era um dos maiores jogadores de pôquer de Southampton na época e, depois de uma jogada de mestre, de toda a Irlanda também. Muitos diziam que ele era tão bom com as cartas quanto o diabo em fazer pactos. Sua fama ia longe. Havia quem dissesse que ele negociava de tudo, principalmente mulheres. Bastava se interessar pela donzela que logo propunha ao pai ou ao marido apostá-la na mesa de jogo. E nunca perdia.

De olhar para ele, ninguém diria que era tão bom assim. Era apenas mais um dos muitos trabalhadores da White Star Line. Aliás, dizem as más línguas que ele conseguiu este trabalho quando ganhou três partidas seguidas do dono da White. E não foi só para ele, não. Foi para sua vila inteira e com a garantia de que ninguém seria despedido nos cinco anos seguintes, que, além de lhes render uma viagem sem despesas para a Irlanda, país natal de alguns de seus vizinhos, lhes garantiria mais dois anos de trabalho após o término desta empreitada.

Alguns dizem que não foi esta a aposta inicial, mas Edward a aceitou para não expor o Seu Ismay à humilhação, que supostamente seria a de divulgar que a Cunard Line era a empresa mais apropriada para construir grandes transatlânticos. Outros dizem que era para que contasse suas aventuras nada convencionais para a época. Seja como for, acho que nunca saberemos a verdade.

Apesar do que falavam sobre ele, uma coisa ninguém podia negar: tinha um grande coração. Se visse ou apenas soubesse de alguém em dificuldades, procurava ajudar… Através do pôquer, é claro. Ele era sempre assim.

De tanto querer ajudar, Edward se viu na maior enrascada de sua vida.

Alguns amigos, depois de alguns pileques e inconformados com sua própria condição social, queriam, a todo o custo, fazer parte da viagem inaugural do navio que estavam construindo. Eles não achavam justo participarem apenas da árdua tarefa de construí-lo. Queriam ser parte da sua glória também. Não outra pessoa havia, a não ser Edward, capaz de conseguir isso. Afinal, ele não perderia nem para o diabo.

Duas semanas se passaram e faltavam apenas quinze meses para o prazo previsto para a entrega do navio. Todos estavam entusiasmados e na esperança de que alguns realizariam o sonho de conhecer a América no navio que estavam construindo.

Por mais convincente que fosse, Edward estava longe de conseguir completar sua tarefa. Porém, todos eram firmes em dizer que ele era o único capaz disso e que, mesmo que fosse o último momento, tiraria uma carta da manga.

Muita gente rica vinha de longe para ver a construção do majestoso navio. Não havia quem não se admirasse diante daquele titã. Por sua estrutura tão bem planejada, por cada detalhe, ele era o orgulho da White. Empresa nenhuma no mundo havia realizado tamanha proeza.

Dentre os muitos que vinham admirá-lo, destacava-se um empresário francês de origem judaica, chamado Lucien Heilel Ben-shachar, que se auto-intitulava Monsieur Lumière e dizia que era apenas um homem de negócios bem sucedido e que conhecia profundamente a alma humana e seus anseios. Ele era um mensageiro de Deus, um anjo que podia mudar a vida de qualquer um que quisesse. M. Lumière, como todo bom empresário, era também um bom jogador e adorava riscos. Dizia que, para a vida valer a pena, era necessário se correr riscos. Era o que separava os vitoriosos dos comuns.

Certa manhã, no refeitório do estaleiro, Edward e seus colegas de trabalho receberam a inusitada visita de M. Lumière. Ele lhes trouxera uma proposta irrecusável. E esta foi a seguinte: Edward deveria se comprometer a jogar com ele uma vez por mês, por quatorze horas seguidas, por quinze meses consecutivos, em troca de quatorze passagens mais uma para a viagem inaugural, mais três vez o valor do salário individual para cada um dos quinze afortunados por quinze meses. Se Edward perdesse qualquer uma das partidas, deveria, juntamente com quatorze de seus companheiros, trabalhar para M. Lumière, sem remuneração, por igual período, ou seja, quatorze horas por dia durante quinze meses. Antes que pudessem argumentar quanto ao fato de não terem tanto tempo disponível para tal evento, M. Lumière lhes apresentou um contrato formal que explicitava cada um dos termos e assegurou-lhes que, durante os quinze meses que se seguiriam, Edward não precisaria trabalhar no estaleiro nos dias 14 e 15, respectivamente, sem prejuízo de sua remuneração. Diante de tais argumentos, todos se calaram para, em seguida, bradarem de alegria e excitação. Edward tinha que conseguir vencer. Ele sempre conseguia.

Dois dias se passaram. Mais um longo dia de trabalho pela frente.

Sujo de graxa e de fuligem, mas sempre de bom humor, Ed, como era carinhosamente chamado pelos amigos, parecia um pouco perturbado àquela tarde. Tinha um mau presságio. Algo não parecia certo. Enquanto outras pessoas ficariam felizes por não precisarem trabalhar por dois dias seguidos e, em vez disso, jogarem cartas, Ed se inquietava e parecia distante. Não porque não confiasse em sua ‘mão da sorte’, como dizia, mas porque, pela primeira vez, sentia que, mesmo ganhando as partidas, perderia.

Na tarde do dia 14, no salão de jogos do Queen Victoria Grand Hotel, o mais luxuoso hotel da época, já se encontravam M. Lumière e alguns de seus assessores. Edward nunca tinha entrado em um lugar assim, mas sabia se comportar, afinal, como grande jogador que era, conhecia muito bem a arte do blefe. Assim, lá ia ele, sem se importar com os olhares preconceituosos que o fitavam à distância. M. Lumière o recebeu calorosamente, como se grandes e velhos amigos fossem. Conversaram longamente sobre trivialidades e assuntos sem importância. Ele queria que Edward se sentisse à vontade. Ed o estava estudando minuciosamente, mas ainda não conseguia se sentir confortável com aquela situação. E era a primeira vez que se sentia assim. De qualquer forma, não era para se sentir confortável que estava ali. Era para vencer. Os sonhos de muitas pessoas de quem gostava dependiam disso.

Mais de quatro horas haviam se passado quando M. Lumière propôs uma pausa. Ele já demonstrava ar de inquietação e cansaço. Talvez fosse sua vez de blefar.

Perto das 4 da manhã, seu oponente entrega o jogo apesar de ter sido uma disputa difícil. Primeira vitória. Faltam “apenas” quatorze.

M. Lumière lhe dá um sorriso instigante e diz que havia muito tempo não participara de uma partida tão “motivadora” e contra um oponente tão valoroso.

Assim os meses foram passando.

Cada nova vitória dava a Edward e a seus companheiros maiores sonhos. Contudo, ele ainda não se sentia inteiramente confortável com o que estava por vir apesar de não saber exatamente do que se tratava.

O que lhes pareceu uma eternidade finalmente chegou ao fim. Aquela seria a última partida.

Depois das horas infindáveis, M. Lumière anunciou, com um certo orgulho, a vitória de Edward e discursou sobre a vida ser feita de ganhar e perder, mas que, para bons jogadores, e era seu caso, não havia perder: havia apenas um novo posicionamento estratégico, ao que fitou Edward por alguns instantes e saiu para retornar, logo depois, com um envelope lacrado com o selo da White. Ele sugeriu que Ed e seus amigos fizessem bom uso daquela oportunidade, pois poderia ser a única de suas vidas.

Dia 10 de abril de 1912. O Grande Dia. A multidão se alvoroçava no porto de Southampton. Muitos dos que ali estavam estavam apenas por curiosidade. Alguns para se despedirem de seus familiares, outros para embarcar. O grupo de operários também se encontrava lá. Ed, a figura mais bem quista dos últimos meses, os liderava rumo à conquista. Eram apenas nove da manhã quando foram liberados para entrar na realização de seu sonho. Não lhes importava estarem na terceira classe.

Pouco antes da partida, M. Lumière, com sorriso que lhe era peculiar, e todos os seus assessores se encaminham para a plataforma de embarque, ao mesmo tempo que David Blair, segundo oficial recém designado e funcionário da White e responsável pelo almoxarifado do Titanic, saía com um olhar de revolta e decepção.

− Lá se vai o homem que detém a chave da antecipação. Pena que seu encarregado não era tão bom assim no pôquer e perdeu! – disse M. Lumière, num tom sarcástico. – Quanto a você, meu caro Edward, quero que esteja comigo no jantar de gala, hoje à noite. Quero que nos entretenha com suas histórias e nos desafie com suas jogadas. E não se preocupe com o que vestir. Já cuidei de tudo. Apenas faça o que faz melhor: blefe, ostente. Isso me agrada muito.

Edward não sabia o que dizer, mas aceitou o convite. Afinal, por que não ganhar algo mais depois de todo o trabalho que teve?

Nos dois dias que se seguiram nada de novo aconteceu. À noite do terceiro dia, porém, Edward percebeu que M. Lumière possuía outra peculiaridade: sempre que olhava para seu relógio de bolso, o que fazia de hora em hora, precisamente, revirava os olhos, como se estivesse acabado de saborear um prato fino. Parecia sair dali por alguns momentos para, em seguida, retomar novos assuntos com muito entusiasmo.

− Noite fabulosa, não é mesmo? – disse a senhora Margareth White, socialite e filantropa America.

− De fato. Noite agradável, com céu límpido e águas tranquilas – acrescentou J. Jacob Ashton, empresário americano.

− Apesar disso, sempre fico apreensiva ao passar por essa parte do Atlântico. É tão cheia de icebergs! – disse a Sra. White.

− Não se preocupe, minha cara. Ouvi dizer que nem Deus pode afundar este navio. Estamos totalmente seguros aqui. Vamos relaxar e aproveitar a noite – continua Sir Guggentopf, industrial britânico, que viajava com Mary Jane Williams, sua… como direi… “secretária”.

− Certamente, Messieurs, Mesdames. O Todo Poderoso não afundará este navio. Não seria lucrativo. Ele também é um bom homem de negócios. Divirtam-se como se esta fosse sua última noite. Oh, perdoem-me a piada de mau gosto. Onde estão meus modos? Como uma forma de compensar-lhes pela indelicadeza, esta noite é por minha conta – interrompe M. Lumière, com um ar de mistério e deboche. – Tenho aqui, diante de vocês, o melhor jogador de pôquer de todos os tempos, meu mais novo protégé, Edward Sinkingworth. Não se assustem: se o navio afundar, ele é o único digno de ir junto. Ah, ah, ah!

Todos riram juntos. Edward, porém, se concentrava no jogo e na mania de relógio de seu “patrocinador”.

− Vamos fazer uma partida com apostas livres. Podem apostar o que quiserem – propôs M. Lumière.

Todos apostaram o que queriam, o que podiam ou não deviam.

− Quero que, se eu ganhar, me conceda um único desejo, o qual revelarei em momento oportuno – diz Edward firmemente.

− Ora, ora, meu caro. Tudo o que quiser. Mas para quê este ar de mistério? Como sabe que não negarei seu pedido, sendo este impossível para mim? – indagou M. Lumière.

− O Sr. é um bom jogador e, como tal, não perderia uma chances destas. Afinal, “para bons jogadores, e é seu caso, não há perder: há apenas um novo posicionamento estratégico” – respondeu Edward, com ar confiante.

Por mais que não gostasse da resposta, concordou, visto não querer sua reputação questionada.

Edward venceu e, mesmo sem saber ao certo, fez o melhor e maior negócio de sua vida inteira.

Na noite do dia 14 de abril de 1912, às 23 horas exatamente, M. Lumière pede licença, dizendo ter assuntos importantíssimos a tratar. Algo que mudaria a história. Antes que pudesse sair, porém, Edward reivindica seu prêmio e lhe fala em segredo. Com um olhar enfurecido, M. Lumière aperta sua mão, diz algo que os outros não puderam entender e sai sem seu sorriso característico.

− A partir daí, todos os eventos que se seguem, vocês jornalistas já conhecem: o navio bate no iceberg, pessoas morrem, pessoas se salvam e por aí vai – diz Charles Mclean, barman ao jornalista que o entrevistava.

− Tem certeza de que não há nada mais? Algo que tenha esquecido? Os detalhes são importantes – diz o jornalista.

− Não há mais nada. Isso é tudo de que me lembro… Espere um segundo… Sim. Isso mesmo. Meu pai me contou que, depois que entrou no bote salva-vidas, juntamente com seus 14 amigos, meu avô viu o tal Lumière ainda a bordo, mas sem parecer se importar com o que estava acontecendo a seu redor, olhar para ele fixadamente como quem tivesse deixado escapar um troféu.

− Sim, eu sei. Seu avô foi um adversário à altura – diz o jornalista.

− Espere aí! Qual o seu nome e para que jornal disse que trabalha mesmo?! Harold News?! – diz Charles, surpreso.

− Não, Sr. Mclean. Trabalho para o Hellish News e meu nome é Louis Lightbearer – disse o Jornalista, olhando para o relógio de bolso antigo e revirando os olhos.

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