FUMETSU, por bia

Era a segunda noite de Dominique Lepik na casa nova. Não estava acostumada ainda com aquele espaço, nem tão pouco estava preparada para uma nova vida num lugar desconhecido.

Não sabia o motivo pelo qual seus pais resolveram deixar a casa na zona oeste do Rio de Janeiro, onde viveram desde antes de ela ter nascido, para morar na região dos Lagos. A casa era grande, arejada e perto da praia. Iria ser quase como viver em férias permanentes.

Charles e Silvia Lepik, seus pais e Michael Lepik, seu irmão mais velho estavam animados com a mudança, mas Dominique, como de costume, era sempre indiferente às decisões da família. Preferia manter-se neutra, mesmo que ás vezes não fosse realmente a sua vontade.

Seus olhos eram de um azul aguado, como o azul de um arco-íris de luz fraca, quando chove ao mesmo tempo em que o sol brilha. Dominique encarava o teto do quarto já fazia algum tempo, imóvel, esperando até que sua mãe viesse lhe chamar, como sempre fazia. Apenas alguns minutos e estaria se preparando para o seu primeiro dia em uma nova escola. “Primeiro dia, nova escola”, passara o fim de semana quase inteiro ouvindo essas palavras que lhe causavam um frio na barriga. Não por ânsia, mas por receio de como seria sua relação com pessoas estranhas, num lugar estranho. Já era um grande problema relacionar-se com sua própria família, como seria então com desconhecidos em um lugar completamente novo?

Dominique estava acostumada à sua vida extremamente reservada, mas de vez em quando conversava sozinha. Não totalmente sozinha, mas com seu “Ego” que era um lado seu que gostava de expressar o que ela realmente estava sentindo, uma versão ousada de si mesma como uma espécie de amigo imaginário que lhe sussurrava aos ouvidos. Tinha sempre cuidado para que ninguém a ouvisse e pensasse que ela havia enlouquecido.

“Já é dia. Pronta pra ser atirada aos leões?” – sussurrou o Ego na mente de Dominique.

– Nem me diga… – gemeu Dominique escondendo o rosto no travesseiro.

“É melhor se aprontar, a Coroa vai chamar a qualquer momento…” – riu o Ego.

– Eu jamais chamaria a mamãe desse jeito! – bronqueou Dominique em voz baixa.

“Eu sou você, esqueceu? Quando vai me deixar sair?”

– Esqueça!

– Dominique… Está acordada? – a voz de Sílvia por trás da porta do quarto despertou Dominique de sua discussão consigo mesma.

– Estou, mãe – respondeu Dominique sem se mover.

– Hã… Não demore, está bem? Seria ruim se chegasse atrasada no primeiro dia.

– Já estou indo – disse Dominique levantando-se da cama vagarosamente.

Dominique arrumou-se rapidamente. Não perdia horas em frente ao espelho como a maioria das meninas de sua idade, nem se importava em parecer mais velha abusando de maquiagem. Na verdade, sua beleza delicada dispensava qualquer tipo de cosmético.  Sua única preocupação com estética, para não parecer que não havia nenhuma, eram seus cabelos, sempre sedosos e arrumados, com uma franja caindo gentilmente um pouco acima dos olhos, mas mesmo isso não lhe dava muito trabalho.

Vinte minutos depois e Dominique já estava na sala esperando por sua mãe.

– Acho que sou hipócrita, você nunca se atrasa. Na verdade, sou eu quem te atrasa sempre, não é mesmo? – disse Sílvia descendo as escadas apressadamente.

– Não tem problema, mãe.

“Tem problema, sim, mãe!” – sibilou o Ego.

– Cale-se! – sussurrou Dominique.

– Disse alguma coisa, querida? – perguntou Sílvia.

– Não… – respondeu Dominique.

– Acredita que o seu pai e o Michael ainda estão dormindo profundamente depois da quantidade de barulhos que eu fiz enquanto me arrumava? Essa idéia de mudança no fim de semana deixou os dois exaustos…

– Eu imagino.

– Então, tudo pronto? Tomou café?

– Hã, não… Estou sem fome.

– Sabe que não é bom sair de casa sem comer.

– Eu como alguma coisa no intervalo.

– Tudo bem, não vou insistir. Mas, por favor, não se acostume.

Dominique acenou com a cabeça positivamente. Sua expressão sempre vazia e aparentemente indiferente deixava não só sua mãe, como o resto da família, todos muito desconcertados. Não era de propósito, era só o seu jeito de ser.

Os pais de Dominique eram um casal de psicólogos, o que parecia ironia, pois não conseguiam interagir com a própria filha. Isso os fazia sentir impotentes de certa forma. Imagine. Conversar durante horas com todos os tipos de pessoas possíveis, todos os dias, viver disso e não conseguir com freqüência trocar frases com pelo menos mais de cinco palavras com a filha caçula.

Sílvia deixou Dominique na porta da escola. A menina apertou os punhos e mordeu os lábios nervosamente antes de entrar no prédio. O ar litorâneo estava frio e levemente chuvoso. Algumas gotículas de água respingaram em seus cabelos enquanto subia as escadas que davam acesso ao interior da escola.

Alguns rostos curiosos no corredor se viraram para lhe observar por alguns instantes. Dominique levou o papel que trazia em uma das mãos com o número de sua sala ao alcance dos olhos.

Subiu dois lances de escada e encontrou sua sala rapidamente. Um trio de alunos conversava distraidamente no fundo da sala, mais precisamente dois garotos e uma garota. Provavelmente, o restante da turma se encontrava no pátio esperando o sinal tocar.   Dominique sentou-se em umas das carteiras à frente e continuou a ler o livro que começara há alguns dias atrás, “Hamlet” de Shakespeare. Não era um livro que qualquer recém adolescente leria, mas, sempre há uma minoria.

Os alunos sentados ao fundo da sala permaneceram quietos por alguns segundos.

– Aluna nova? Está um pouco fora de época, não acham? – murmurou um garoto alto e de óculos.

– Ouvi dizer que quando vêm assim no meio do ano é porque se metem em encrenca por lá… – disse o outro garoto, esse mais baixo e de cabelos escorridos por baixo de um boné.

– Não acho que seja isso… Olhem bem pra ela. Têm cara de quem se meteria em alguma encrenca? Parece mais que está fugindo de alguém – riu a garota, que por sinal, tinha um ar bem esnobe.

“Um bando de panacas.” – desaprovou o Ego. Dominique concordou com a cabeça, em silêncio.

Os três riram por um instante e depois mudaram de assunto. Dominique podia ouvir tudo o que diziam, mas preferia ignorar. Comentários indiscretos eram completamente desprezíveis em sua opinião. Era bem melhor continuar lendo seu livro do que dispersar sua mente com conversas precipitadas de pessoas que não lhe conheciam.

O sinal tocou alto no pátio. O restante da classe adentrou a sala conversado alto, segundos depois. Pararam por um instante quando perceberam a presença de Dominique, em seguida encontraram seus lugares.

(CONTINUA)

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